domingo, 12 de julho de 2009

Livro de Dom Clemente Isnard que defende fim do celibato e ordenação de mulheres causa frisson na Igreja

Conheci Dom Clemente Isnard nos idos de 1960 quando ele veio para Friburgo. Foi o primeiro bispo da paróquia e ainda me lembro de sua chegada e da admiração que senti por ele desde o primeiro momento e que se aprofundou com o passar do tempo. Era um religioso de vanguarda, comprometido com os pobres, simpatizante dos movimentos de esquerda. Deu abrigo a muita gente que sofria perseguições e durante um período, chegou a ceder uma sala na Cúria para nossas reuniões. Tempos bicudos aqueles.
Pois agora fico sabendo que do alto de seus 90 anos, lúcido e ativo, Dom Clemente Dom Isnard acaba de lançar um pequeno livro que está provocando um discreto, mas profundo tremor na Igreja: “Reflexões de um bispo” (Editora Olho Dágua, SP). Dom Clemente sofreu pressões de todo tipo para não publicá-lo, mas sempre foi tinhoso e coerente. Não se deixou intimidar.

Para começar, o abade do mosteiro de São Bento, mesmo sem ter lido os originais, lhe pediu para desistir, afirmando que aquele livro lhe traria “muito sofrimento e respingos para o mosteiro".
A perseguição estava apenas começando. Dom Lorenzo Baldisseri, o Núncio Apostólico, entrou em ação e proibiu a Editora Paulus (antiga Paulinas) de publicar o livrinho de Dom Clemente. Prontamente, ele procurou outra editora, no caso a Olho Dágua.

Quando viu que o livro ia sair mesmo, o cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Eusébio Oscar Scheid pediu (ou melhor, ordenou) que 14 bispos escrevessem a Dom Clemente intercedendo pela não publicação. Mas ele não cedeu.
“Eu devo um testemunho. Como diz o padre Comblin (grande teólogo da Igreja), os velhos dizem as coisas”, disse. O fato é que mesmo sem pretender atentar contra a fé católica, Dom Clemente expressa o que muitos bispos pensam e gostariam de dizer acerca de temas ainda tidos como polêmicos ou tabus dentro da igreja católica. A vocação sacerdotal não celibatária, o lugar da mulher na Igreja, as ordenações femininas, a nomeação dos bispos com participação popular e a sucessão apostólica estendida a todos os bispos.

Marcadores para esta postagem: Dom Clemente Isnard, “Reflexões de um bispo”, Editora Olho Dágua, Dom Lorenzo Baldisseri, Dom Eusébio Oscar Scheid, padre Comblin, Igreja Católica

2 comentários:

Francisco disse...

A cara de pau dos sacerdotes é a mesma de nossos senadores. Vivem em um passado já há muito distante. Hoje suas falcatruas são descobertas muito mais rápido.
Aplaudo estas cabeças lúcidas, estas sim deveriam ser as verdadeiras formadoras de opinião.

Fernando Costa disse...

IGREJA CATÓLICA ROMANA E DA AMÉRICA LATINA EM ESPECIAL: arcaica, ultrapassada, desavisada, desprezível em seus dogmas e sempre na contramão da historia, da evolução, da percepção e da preservação da vida! Pode ser irônia a última, mas se opor contra o uso de anti-conceptívos é o mesmo que abandonar a vida!