Conheci Dom Clemente Isnard nos idos de 1960 quando ele veio para Friburgo. Foi o primeiro bispo da paróquia e ainda me lembro de sua chegada e da admiração que senti por ele desde o primeiro momento e que se aprofundou com o passar do tempo. Era um religioso de vanguarda, comprometido com os pobres, simpatizante dos movimentos de esquerda. Deu abrigo a muita gente que sofria perseguições e durante um período, chegou a ceder uma sala na Cúria para nossas reuniões. Tempos bicudos aqueles.Pois agora fico sabendo que do alto de seus 90 anos, lúcido e ativo, Dom Clemente Dom Isnard acaba de lançar um pequeno livro que está provocando um discreto, mas profundo tremor na Igreja: “Reflexões de um bispo” (Editora Olho Dágua, SP). Dom Clemente sofreu pressões de todo tipo para não publicá-lo, mas sempre foi tinhoso e coerente. Não se deixou intimidar.
Para começar, o abade do mosteiro de São Bento, mesmo sem ter lido os originais, lhe pediu para desistir, afirmando que aquele livro lhe traria “muito sofrimento e respingos para o mosteiro".
A perseguição estava apenas começando. Dom Lorenzo Baldisseri, o Núncio Apostólico, entrou em ação e proibiu a Editora Paulus (antiga Paulinas) de publicar o livrinho de Dom Clemente. Prontamente, ele procurou outra editora, no caso a Olho Dágua.
Quando viu que o livro ia sair mesmo, o cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Eusébio Oscar Scheid pediu (ou melhor, ordenou) que 14 bispos escrevessem a Dom Clemente intercedendo pela não publicação. Mas ele não cedeu.
“Eu devo um testemunho. Como diz o padre Comblin (grande teólogo da Igreja), os velhos dizem as coisas”, disse. O fato é que mesmo sem pretender atentar contra a fé católica, Dom Clemente expressa o que muitos bispos pensam e gostariam de dizer acerca de temas ainda tidos como polêmicos ou tabus dentro da igreja católica. A vocação sacerdotal não celibatária, o lugar da mulher na Igreja, as ordenações femininas, a nomeação dos bispos com participação popular e a sucessão apostólica estendida a todos os bispos.
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