sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Queridas Amigas do Peito

Fui uma das fundadoras do grupo de mães Amigas do Peito, nos idos de 1980. Na época, quase nenhuma mãe amamentava e eu, que “ainda” dava de mamar a Helena, de quase um ano de idade, me sentia um ser de outro planeta naquele universo de mulheres que alimentava seus filhos com mamadeira.
Conheci Nina na praia. Ela se aproximou de mim ao me ver dando de mamar a Helena, porque também ela se sentia estranha por amamentar Andrina,que tinha mais ou menos a mesma idade que Helena. A identificação foi imediata e profunda. Tornamo-nos amigas inseparáveis desde aquela manhã no Posto 9. Éramos vizinhas, eu morava na Lagoa e ela, na Nascimento Silva. Vivíamos juntas, nós e nossas meninas. De manhã, praia no 9, de tarde, pracinha, a Nossa Senhora da Paz ou General Osório, tanto fazia. Nos finais de semana, muitas vezes íamos pro Caiçaras, pois a praia ficava muito cheia. Dependendo do tempo, o programa era a Lagoa, o Parque da Cidade ou mesmo o terraço da cobertura, com sua piscina de plástico. Bons tempos aqueles.
Um dia lemos no JB uma entrevista com a atriz Bibi Vogel falando sobre amamentação, com uma linda foto dela dando de mamar a Maya, então com quase dois anos. Bibi estava reunindo grávidas e mães para formar um grupo de apoio mútuo e também de reflexão sobre amamentação. Era perto, no apartamento da Lilian Palatinik, que ficava na Avenida Atlântica. E lá fomos nós, com nossos bebês a tiracolo.
Bibi nos apresentou ao grupo e logo nos sentimos em casa. Quase todas as grávidas e mães que ali estavam eram pacientes da doutora Tania Costa Rego, uma das mulheres mais interessantes que já conheci. Bebês e crianças de várias idades circulavam de colo em colo, engatinhavam, choravam e... mamavam. No meio disso tudo, um bando de mulheres no maior papo, trocando experiências sobre amamentação, sono, relacionamento com marido, sogras, palpites, pediatras, desmame. Conversar sobre o desmame foi, aliás, na época, o que mais nos motivou a ir àquela primeira reunião.
Bibi participava de um grupo de incentivo ao aleitamento materno na Argentina, o Ñuñu e sabia de sua importância para as mães que desejam amamentar ou amamentam. Como já disse, pouquíssimos bebês tinham o privilégio de ser amamentados. As mulheres até tinham consciência da superioridade do leite materno e das vantagens da amamentação, mas simplesmente não conseguiam dar de mamar por muito tempo. O despreparo dos médicos com relação ao tema era muito maior que hoje. A rotina dos serviços de saúde era a pior possível, nada de pai assistindo parto nem alojamento conjunto. Os bebês nasciam e iam direto para o berçário, onde já eram apresentados à mamadeira. A propaganda e o marketing das multinacionais de leite em pó eram muito mais agressivos. Não era de estranhar que as mães amamentassem tão pouco, desistindo diante das primeiras dificuldades. Só com muita garra e força de vontade era possível superar os obstáculos iniciais.
Lá se vão 30 anos das Amigas. Uma história. Neste tempo, muita coisa aconteceu. Daquele pequeno grupo inicial, formaram-se novos, em vários bairros do Rio e em outras cidades. Tivemos uma participação importantíssima na difusão do aleitamento materno no país. Bibi, com seu carisma e sua dedicação, conseguia mobilizar meio mundo para a nossa “causa”. Graças a ela e à participação de atrizes e de personalidades importantes (até o Gabeira, gente, participava de nossos encontros, com sua mulher Yamê), aos Domingos da Mama, aos AmamentArte e outros eventos, que reuniam dezenas de mães em praça pública, estávamos sempre presentes na mídia, na grande mídia. O que nenhum discurso oficial conseguiria.
Sem nada para perder, muito pelo contrário, as Amigas não tinham papas na língua. Denunciavam práticas ilegais, como as da Nestlé e de fabricantes de mamadeiras, que patrocinavam congressos e distribuíam brindes aos pediatras. Como estávamos na moda e na mídia, éramos chamadas para participar de palestras em hospitais e congressos médicos. Lá íamos nós, sempre falando das orientações equivocadas transmitidas por quem mais deveria nos ajudar e que dificultavam, por vezes, até impediam a mãe de amamentar. Paralelamente, as Amigas mantinham seus grupos e estavam sempre prontas a ajudar as mães que nos procuravam em busca de apoio. No começo, dávamos até nossos telefones particulares durante as entrevistas, come é que pode? A coisa chegou a um ponto que o Wambier, palhaço que era, atendia nosso telefone assim: “Amigas do Peito, boa noite”.
Tudo sem nenhum patrocínio, sem nenhum apoio. E foi por este motivo que o grupo meio que se dividiu, pelo menos perdeu alguns de seus alicerces e lideranças importantes. Se, por um lado, era fundamental manter nossa independência, por outro tornava-se necessário repensar nosso projeto, torná-lo, porque não, viável financeiramente. As discussões e debates entravam noite adentro e, entre mortos e feridos, o grupo que defendia o ponto de vista do voluntariado total e absoluto, venceu. Estas amigas, persistentes em sua luta e em seus ideais, continuam até hoje segurando o grupo nas costas. Com muita honra e dignidade. Mas que as Amigas do Peito poderiam ter ido muito mais longe, lá isso poderiam. Ninguém me tira esta idéia da cabeça.
As Amigas do Peito conseguiram comprar e manter uma sede, graças a uma ajuda internacional obtida através da Bibi, que já cessou. E só. Tem sempre algum pingadinho obtido através da venda de bonequinhas que amamentam, de camisetas de bebês com a frase “Movido a leite materno”, kepinas e outros produtos artesanais. Com isso, apenas com isso, sem qualquer verba oficial ou apoio financeiro de qualquer instituição ou empresa, as Amigas do peityo aí estão fazendo seu trabalho de formiguinhas e mantendo acesa a causa da amamentação. Afinal, não se pode descuidar da luta jamais, sob pena de tudo voltar ao que era.
Eu, como tantas outras amigas, estou longe, mas acompanho e aplaudo o trabalho abnegado das Amigas do Peito e me considero, sempre vou me considerar, uma delas. E fico feliz, muito feliz, quando vejo, hoje, quase toda mãe amamentando ou leio uma estatística comprovando como o índice de aleitamento materno subiu aqui no Brasil. Tenho a certeza de ter contribuído para que isso acontecesse e isso é bom demais.

6 comentários:

Debora disse...

Que legal, Dalvinha. Eu, que ainda tao jovem ate entao, participei de perto - ainda que de escanteio -, todo esse seu movimento e isso ficou marcado pra sempre em mim, tanto as lembrancas como o conhecimento da importancia da causa, tanto assim que me indigno ate hoje qd vejo maes que simplesmente optam por nao amamentarem, ou pq simplesmente nao gostam, ou pq alegam nao conseguirem; enfim, nada consigo fazer pra convence-las do contrario,mas sempre opino minha indignacao pro quase que constrangimento por parte delas.
Com certeza pela sorte de ter vivido esta causa ao lado de vcs, jamais sequer contemplei a ideia de nao amamenter o Nasser, o que fiz ate seu primeiro aninho de vida; obrigada pela boa influencia, valeu!!!

Liana disse...

Ah como eu gostei de lembrar dessas coisas! Um dia vc me ligou pedindo que fosse amamentar o bebê da Nina que nascera bem próximo da Diana.Estavam numa dessas reuniões e o bebê chorava em casa,lembra disso?
E ela, Nina,por onde anda?
Estava tentando lembrar de um apelido que o Wambier dava mas a memória foi-se...era alguma coisa com LIG, vc lembra?

Beijo!

Cris V disse...

Pois é, bons tempos aqueles, dava até para um bebê mamar em outras mães pois não havia aids. A Nina está há anos no matutu, comunidade do Daime em Minas Gerais, num lugar chamado Airiruoca, acho, não tenho contato com ela háanos, tomara que ela leia este post. E o Wambier, acho que atendia o telefone falando "SOS Amamentação, boa noite", não era?

Anônimo disse...

Valeu Dalva.... Faremos 30 anos na luta.
Embora não tenha participado do início, já são muitos os anos que estou metida nisto. Os projetos continuam sendo interessantes, nossa transformação é pequena, mas nosso apoio já chega mais de 200 mil famílias. Só de visitas ao site e cartas por e-mail... ligações telefônicas... você nem imagina. e os grupos firmes em todas as semanas do mês estamos em algum dos pontos de encontro trocando experiências, conversando com outras mães...avós, pais...as famílias hoje participam bem mais que no início. Bom saber de você!!!! Beijos Maria Lúcia

Liana disse...

Essa do telefone eu não lembrava mas o apelido me lembrei quando fui no site! Era La Leche League...
Que coisa incrível essa da Nina! De Ipanema para Matutu!

Luiz Sergio Nacinovic disse...

Eu lembro dessa época. Lembro da Nina......