domingo, 28 de junho de 2009

Canudo e competência

No Globo do dia 25 (que, pra variar, li com atraso), um artigo fantástico da Cora Rónai que encerra definitivamente os debates sobre a questão do diploma. Fiquei com vontade de enviá-lo pra um monte de gente. Para facilitar, acabei postando aqui.

"Canudo e competência

“Você tem que escrever sobre esta barbaridade!” – disse o amigo do meu amigo.
“Acabar com a exigência de diploma para os jornalistas… a que ponto chegamos! Agora qualquer um pode ir para a redação e se dizer jornalista. Como é que vai ficar isso?”
Gostei da sugestão; mas minha opinião deixou-o desconcertado. É que sempre fui contra – radicalmente contra – a exigência de diploma de curso superior para o exercício da nossa profissão.
“Então você acha que ninguém precisa estudar para ser jornalista?”
Pelo contrário! Ainda que não entenda o que diplomas têm a ver com estudo, acho que jornalistas precisam estudar muito, e sempre. E acho bom que esqueçam este verbo, “estudar”, em geral ligado a algo que se faz por obrigação. Jornalistas de verdade lêem e se informam contínuamente: por hábito, por segunda natureza, por uma curiosidade intelectual incontrolável que os leva a se interessarem por tudo, ou quase tudo. Diploma não leva ninguém a fazer isso, a ser assim.
O problema é que o Brasil cultiva a noção de que o diploma de curso superior é sinônimo de conhecimento. Como o nosso ensino básico é péssimo, e dificilmente se aprende alguma coisa na escola, sobra a ilusão de que a passagem por uma universidade nos tornaria automaticamente cultos e educados — e tão superiores aos demais, que passaríamos a ser até merecedores de prisão especial.
É por isso que algumas pessoas insistem em ver, no fim da exigência do diploma, uma espécie de “rebaixamento” da profissão. Elas acham que, se o diploma de jornalismo deixou de ser obrigatório, nenhum diploma (leia-se conhecimento) será necessário. Não pode haver equívoco maior.
A única coisa que o diploma de jornalismo garantiu, até aqui, foi uma reserva de mercado injusta e pouco democrática. As redações vão ficar mais ricas e diversificadas com o fim dessa burocracia anacrônica, que pressupõe que apenas quem fez comunicação está apto a lidar com a informação.
Acontece que o jornalismo é importante demais para ficar restrito a um grupo homogêneo de pessoas, sem a mínima brecha para variações.
Paradoxalmente, o fim da exigência do diploma deve melhorar muito a qualidade dos cursos de comunicação. Como eles não são mais obrigatórios, precisarão ser suficientemente ágeis e inteligentes para conquistarem os alunos e as empresas de comunicação. Que continuarão, é claro, a recrutar a maior parte dos seus quadros entre os formandos.
Nos últimos dias, tenho visto muita gente lamentando o tempo que perdeu na faculdade para conseguir o diploma; mas qualquer curso que alguém lamenta ter feito não precisava, nem merecia, ter sido feito. E me lembro de Mark Twain, que dizia que nunca deixou sua escolaridade interferir com sua educação.
Outra coisa que ouvi e que encontrei aos montes na internet foi a declaração estapafúrdia de que os cursos de jornalismo seriam imprescindíveis por “ensinar ética”. Como assim, “ensinar ética”?! Ética vem de casa, da vida inteira; não há curso que possa suprir essa lacuna. Meu conselho para quem acredita nisso é esquecer o jornalismo e entrar para a política.
Ser jornalista, enfim, não vai ficar mais fácil. Vai ficar cada vez mais difícil. O que vai ficar mais fácil é se dizer jornalista, mas não vejo em que isso possa diminuir qualquer um de nós. Ser escritor, por exemplo, é para poucos, embora uma quantidade infinita de pessoas bem intencionadas se atribua o ofício. Ter diploma de escritor não mudaria em nada a sua falta de talento. Ou de leitores.”

3 comentários:

Julia disse...

Otima cora ronai, sempre!

ANTONIO FERNANDO disse...

amiga, esse negócio de jornalista com diploma ou sem ele parece que já tá superado. vamos continuar discordando do Supremo (o nosso Conselho dos Guardiões) e esperar outra covardia contra aqueles que se esforçam pra concluir um curso superior e é derrubado por uma canetada do STF.
Seu blog é ótimo.continuarei sempre lendo as suas impressões.beijo amigo
AF

Liana disse...

Oi Dalvinha! Lembrei imediatamente de seu post quando li a coluna da Cora.
Adoro a coluna dela,sabia? Quando leio,sinto como se ela fosse uma pessoa com quem tenho muita intimidade,quase uma parente, mesmo sem a conhecer pessoalmente...
Beijo!