sábado, 2 de janeiro de 2010

A minha cidade

Hoje acordei e ao abrir a janela, um sol esplendoroso inundava minha cama e meu apartamento. Um céu muito azul, com algumas nuvens, as montanhas recortadas, a atmosfera limpa, como se tivesse sido lavada após tantos dias de chuva. Friburgo. Minha terra, terra de meus pais, de meus avós, meu porto seguro.

Quis iniciar meu blog este ano com uma postagem que falasse sobre esta cidade cheia de contradições em que nasci, que reneguei durante tantos e tantos anos e para onde voltei. Friburgo, onde certamente irei morrer. Friburgo, com todos os seus fantasmas, que ainda me atormentam a alma vez por outra.

)
Que cidade estranha, Friburgo. De sua beleza, nem precisa falar. Nem com todas as agressões de que vem sendo vítima ao longo dos anos, Friburgo ficou feia. Sim, seria preciso uma boa plástica arquitetônica e, nem assim, conseguiríamos resgatar seus casarões históricos demolidos, suas árvores derrubadas, suas praças antes tão românticas.

(Foto: Osmar de Castro)
Não somos mais um pequeno município do centro-norte fluminense. Com quase 200 mil habitantes, Nova Friburgo é, queiram ou não e já há muito tempo, pólo de todas as cidades próximas. E, com todos os problemas de esvaziamento econômico que vem enfrentando, com todo o desemprego, ainda é uma cidade que permite a seus moradores uma qualidade de vida razoável com relativamente pouco dinheiro.


Fértil em talentos de todas as áreas, Friburgo tem grandes artistas, escritores, músicos, que tornam a vida cultural da cidade bastante movimentada. Quem diz que aqui nada acontece é porque não acompanha o noticiário da cidade, não lê nem a edição on line de A Voz da Serra, não assiste as TVs locais, não segue o CulturaNF (a coleguinha Scheila Santigo não deixa passar nada sem um registro) nem o Transparência Nova Friburgo (a Monique Schuabb é outra atenta observadora e divulgadora das coisas da cidade).
(Foto Osmar de Castro)
Problemas nós temos de montão. Um deles é a falta de amor dos friburguenses por sua própria terra. Nunca vi um povo rejeitar tanto sua cidade! O pessoal daqui tem mania de criticar tudo quanto é iniciativa que visa resolver ou minimizar nossas dificuldades, por vezes até rejeitando-as frontalmente. E, quando não chega a este ponto, também não é muito de apoiar. Alguns projetos, como o da nossa Valentina, todo mundo ama, acha lindo, quer aparecer em suas páginas, mas na hora de fazer um anúncio, por menor e mais barato que seja, nada. A própria A Voz da Serra, do alto dos seus quase 65 anos, vive esta mesma dificuldade e para sobreviver, acaba tendo que fazer muitas concessões. Como disse Zuenir Ventura, durante a festa dos melhores do ano promovida pela AFI, "fazer jornalismo na capital é fácil, difícil é fazer jornalismo no interior".

É, a elite friburguense, ou melhor, a falsa elite friburguense, é detestável. Não mudou nada desde quando saí daqui aos 20 anos. De geração em geração, continua de nariz em pé, fingindo ser o que não é, ostentando egoisticamente seus bens comprados a prestação nem sempre honradas, hipócrita e bajuladora dos poderosos. Uma tristeza.

Outro problema de Friburgo é a política. O município já teve políticos memoráveis lá nos antigamente, movidos unicamente por um amor genuíno a esta terra. Atualmente, somos governados por grupos com interesses próprios e que não são, necessariamente, os mesmos da população, muito pelo contrário. Mas deixemos este tema para os comentaristas políticos. Quer saber mais? Leia em Atos e Relatos que o coleguinha Antônio Fernando conta tudo em sua lista dos dez piores do ano.

Eu não sou muito de listas não, mas se fosse fazer uma, certamente iria listar os melhores e não as piores. Mas uma das melhores coisas de Friburgo hoje é sua gastronomia, com restaurantes de todos os estilos e para todos os bolsos. Hoje, por exemplo, é dia da feijoada da Deise lá no Cantinho da Roça, no Cônego, que é simplesmente maravilhosa. Experimentem e todo sábado a gente vai se ver por lá. Por falar nisso, fui. Tenho um monte de coisas para fazer antes de sair e foi lembrar da feijoada para a fome começar a bater.
Custódia e Fustebrino, os anfitriões do Cantinho.

Créditos das fotos: A primeira, do Caledônia, é da Regina lo Bianco; a segunda, da Praça Getúlio Vargas, é do Nelson Alvarez e as demais, do Osmar de Castro, tiradas no primeiro dia do ano, em que Friburgo ficou absolutamente deserta.

17 comentários:

TIGRE DA NOITE disse...

Adorei ler este texto tão verdadeiro e cheio de amor, ao mesmo tempo. Sim, eu senti o amor que voc~e tem pela sua terra...é lindo como Fribrurgo. Que cidade fantástica, onde seus habitantes realmente deveriam dar mais valor. Eu, como carioca, tive a honra de passar alguns anos neste paraíso e marcou pra sempre a minha vida. Friburgo faz parte da minha vida, do meu coração saudoso. Amo demais este lugar. Aí, fiz grandes amigos, como você, que mesmo distante, sei que reserva no peito um carinho especial. Orgulho-me disso.
Aproveito pra desejar que 2010 seja lindo como essas montanhas, como essas flores que brotam aí... Bjs

Scheila L. Santiago disse...

Muito bom! Assino embaixo, literalmente!!! Rsrsrsrrs

Monique disse...

Em primeiro lugar, não posso deixar de agradecer a menção ao blog Transparência, que nasceu e continua sem maiores pretensões, a não ser o de trazer algo mais que talvez a gente não encontre por aí.
Saber do seu reconhecimento já vale a pena ter trazido o blog até aqui.
No mais, eu tb sou uma apaixonada pela minha cidade natal e tb concordo literalmente com os pontos apontados em seu post.
Friburgo ainda resiste ao novo, ainda tem dificuldade em ampliar seus horizontes...Mas enfim, estamos aqui p/contribuir, não é mesmo?

Abçs e mais sucesso ao Cris V em 2010!

Liana disse...

Cris V, de Nova Friburgo para o muuuuuuuuuuuuuundooooooooooooo!

Dalvinha querida, meu coração mora nessa cidade...desde pequenininha.

Beijo!

proskineo disse...

É verdadeiramente incrível o espectro de contradições! Nova Friburgo, ou "nossa Friburgo" tem sofrido por muito tempo o descaso dos nossos "líderes" na prefeitura e na câmara, que, salvo raras (bem raras mesmo) excessões só se preocupam em ganhar aquela "miséria" de salário e ainda um "por fora" para ajudar no orçamento doméstico.
Infelizmente isso é mais "cultural" do que queiramos, e, enraizado nas famílias corroe toda possibilidade de criação de perspectiva que se apresente. Projetos abandonados, crianças "deseducadas", jovens sem amor para com o próximo.
Alías, tudo se resume nisso, nos bons e velhos (sempre atuais) grandes mandamentos de Jesus: "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo".
Mas como todo bom friburguense, me despeço, saudoso desta terra, repleta de possibilidades e sonhos, na esperança de vê-la, um dia, exuberante como merece.
Um forte abraço.

confetes disse...

Tia Dalvinha,

Muito me emocionei com este post! Acho que o que acontece com Friburgo, essa postura de desvalorização que seus filhos vestem, é o que acontece com o Brasil: poucos têm amor à terrinha...Como diria o Nelson Rodrigues, a nossa "alma de viralata" impede o nosso avanço, "o problema do Brasil é o brasileiro", assim ele dizia...

Assim como aconteceu com mamãe, Friburgo foi, para mim, amor à primeira visita. E tenho planos - quem sabe? - de fazer minha vida aí. Trabalhar numa escola e numa faculdade, ter uma casa bonita - nada muito grande, mas adoraria ter uma casa casa -, criar meus filhos nessa cidade que tanto me trouxe alegrias...Em Friburgo eu até respiro melhor.

Eu tenho um caderno de redações, da sexta série, em que escrevi uma homenagem, o nome era "Doce Friburgo, saudades..."

Quase me sinto como os poetas do exílio.

Liana disse...

Ai essa minha garota!

Liliana Sarquis disse...

"Não saio do meu Rio de Janeiro". Ouvi isso de um carioca, que morava no subúrbio, não ia a praia (nem em Ramos), nem ao Maracanã, nem passava perto da Zona Sul. Nem boteco da esquina (na zona norte tem ótimos) frequentava. E nós, morando numa cidade linda, com um clima que nos obriga vez por outra até a nos cobrir para dormir no verão, com Lumiar, São Pedro etc, reclamamos, reclamamos. Deixamos Benito de Paula virar paulista, deixamos trezentos outros talentos adotarem outras terras. E nem sabemos que são friburguense. E eu, candanga de nascimento (uma das primeiras), vivo falando bem da terra em que não nasci, mas fui criada. Por que? Porque acredito em Friburgo. Sempre falo para quem está reclamando: "me diga qual a praça mais bonita do que a getúlio vargas com seus eucaliptos". Estou falando de beleza. Ninguém lembra. Outra coisa: assistir show - de graça!!!! - de qualidade num teatro municipal como o nosso ou no gramado do lindissimo country, no festival de inverno. Todo mundo foi, mas ninguém leva isso em consideraçãop pra exaltar a cidade. É o que vc diz, dalvinha,Friburguense é um povo muito esquisito que faz questão de desvalorizar o que temos. Tem que fazer uma espécie de Arca de Noé e enfiar todo mundo numa daquelas cidades bem brabas da baixada. Minha sócia Deise, que é de Nova Iguaçu, sempre diz: "esse pessoal não tem noção do que está falando". E, engraçada como é completa: "lá não tem bala perdida. Tem bala certeira, porque ninguém erra o alvo". rsrsrsrsrs.

Anônimo disse...

Sentimento puro o texto. parabéns!
Friburgo é um lugar fantástico, cheio de raízes e pontos extremos. Lugar acolhedor que não exige prestação de contas de quem foi ou chegou. Acho que as caracteristicas levantadas no texto se aplicam perfeitamente por estar carregada de emoção, como uma declaração de amor. Nao compartilho com a lista dos 10 erros citados no texto pelo colega Antonio, pois os mesmos são evidentemente movidos pelo crítico político fazendo o seu papel pautado na razão.
Friburgo teve 200 coisas boas no ano que compensam os problemas e não abalam de forma alguma o status de melhor lugar do mundo, porto seguro de todos.
Parabens !

Cris V disse...

Gente, vou tentar re-comentar os comments um a um, se mão der, desculpem. Afinal, o que fica patente para mim é o imenso amor de todos nós por Friburgo, não é mesmo? Luiz Reis, meu amado e sumido locutor (que voz linda que ele tem, gente, arrasava lá na Caledônia no tempo em que ela era rádio...), apareça de vez em qdo. para matar as saudades, Luizinho!
Eu acho que Monique acertou na mosca, Friburgo tem (sempre teve) uma certa dificuldade de ampliar seus horizontes...Qto. a Liana, sempre soube que seu coração morava em Friburgo, mas o da filha dela, a Rachel (Confetes),para mim, foi novidade. Fiquei feliz por saber que mais cedo ou mais tarde, quem sabe, terei mais esta sobrinha-neta perto de mim e arrasando em sua área, como sempre!!! Rachel é uma poeta de uma sensibilidade surpreendente, quero muito ler esta redação dela feita na sexta série onde já aparecia sua capacidade literária. Me manda pra eu ler?
Este post rendeu até um comentário da Australia, do Ulisses que está lá fazendo seu mestrado de regência e que tb. declarou seu amor por Friburgo. Para terminar o dia (quase uma da manha e acabei deixando para concluir amanha o post de hoje), as palavras da Lili que sempre sabe o que diz e de um anônimo (ai, que curiosidade, quem será?!)elogiando meu post.
Por estas e outras é que a gente faz blog, viram???
E ainda ganhei de presente de Natal/aniversário de minha sobrinha Liana o contador das postagens com as bandeirinhas dos países de pessoas que me visitaram. Repararam? Até que para um dia não fui mal, né? Beijos a todos.

Crisgurjão disse...

Dalva,
Lindo mesmo lavar a alma no início do ano! Mais lindo ainda falar com o coração dessa maravilhosa Friburgo (com defeitos ou sem defeitos)que também tanto amo, mesmo sem ser daqui (acho que já sou um pouquinho, tantos netos tenho que são daqui). Feliz ano Novo!
bjk

Ana Borges disse...

Queria saber q. mistério tem Friburgo pra atrair e segurar a gente aqui, nadando contra a natureza, tentando fazer as coisas, mesmo levando tanta paulada e topando com cada gente tão fdp.
Só pode ter a ver com a natureza e um punhado de pessoas como essas q. pintam por aqui e nos incentivam a perseverar.
Bjs e que 2010... bem, seja o q. Deus quiser. Não tem outro jeito.

Liliana Sarquis disse...

Rsrsrsrsrs. Ótimo o teu comentário, Ana!

Ana Borges disse...

Pois é Lili, deve ser a natureza q. nos prende aqui, pq. num ato falho, escrevi nadando contra a 'natureza', em vez (invés?)de 'correnteza'.
Mas todo mundo aqui entendeu, né mesmo?
Saudades de vc, Lili.
Beijão.

Daniel Marcus disse...

A bela cidade descrita com tanta transparência e amor, parabéns Cris V. Bjos a todas, Cris, Ana Borges, Liliana Sarquis e Scheila.

Anônimo disse...

Belo texto. Belas fotos. Bela cidade.
Uma cidade para ser amada e respeitada.
Com muitas contradições é certo, mas com enormes possibilidades.
Que o nosso amor a esta cidade seja maior que os interesses menores de grupos que a dominam.

Abraços

Cláudio Damião

deise disse...

dalvinha adorei a matéria inteira, concordo em numero, genero e grau. e as fotos estão belíssimas. Como vim da Baixada Fluminense, consigo admirar a cada amanhecer e valorizar o que as pessoas que sempre tiveram isso aqui nao estao nem ai pra essa beleza. Valeu beijos deise