Hoje acordei e ao abrir a janela, um sol esplendoroso inundava minha cama e meu apartamento. Um céu muito azul, com algumas nuvens, as montanhas recortadas, a atmosfera limpa, como se tivesse sido lavada após tantos dias de chuva. Friburgo. Minha terra, terra de meus pais, de meus avós, meu porto seguro. Quis iniciar meu blog este ano com uma postagem que falasse sobre esta cidade cheia de contradições em que nasci, que reneguei durante tantos e tantos anos e para onde voltei. Friburgo, onde certamente irei morrer. Friburgo, com todos os seus fantasmas, que ainda me atormentam a alma vez por outra.
Que cidade estranha, Friburgo. De sua beleza, nem precisa falar. Nem com todas as agressões de que vem sendo vítima ao longo dos anos, Friburgo ficou feia. Sim, seria preciso uma boa plástica arquitetônica e, nem assim, conseguiríamos resgatar seus casarões históricos demolidos, suas árvores derrubadas, suas praças antes tão românticas. (Foto: Osmar de Castro)
Não somos mais um pequeno município do centro-norte fluminense. Com quase 200 mil habitantes, Nova Friburgo é, queiram ou não e já há muito tempo, pólo de todas as cidades próximas. E, com todos os problemas de esvaziamento econômico que vem enfrentando, com todo o desemprego, ainda é uma cidade que permite a seus moradores uma qualidade de vida razoável com relativamente pouco dinheiro. Fértil em talentos de todas as áreas, Friburgo tem grandes artistas, escritores, músicos, que tornam a vida cultural da cidade bastante movimentada. Quem diz que aqui nada acontece é porque não acompanha o noticiário da cidade, não lê nem a edição on line de A Voz da Serra, não assiste as TVs locais, não segue o CulturaNF (a coleguinha Scheila Santigo não deixa passar nada sem um registro) nem o Transparência Nova Friburgo (a Monique Schuabb é outra atenta observadora e divulgadora das coisas da cidade).
(Foto Osmar de Castro)
Problemas nós temos de montão. Um deles é a falta de amor dos friburguenses por sua própria terra. Nunca vi um povo rejeitar tanto sua cidade! O pessoal daqui tem mania de criticar tudo quanto é iniciativa que visa resolver ou minimizar nossas dificuldades, por vezes até rejeitando-as frontalmente. E, quando não chega a este ponto, também não é muito de apoiar. Alguns projetos, como o da nossa Valentina, todo mundo ama, acha lindo, quer aparecer em suas páginas, mas na hora de fazer um anúncio, por menor e mais barato que seja, nada. A própria A Voz da Serra, do alto dos seus quase 65 anos, vive esta mesma dificuldade e para sobreviver, acaba tendo que fazer muitas concessões. Como disse Zuenir Ventura, durante a festa dos melhores do ano promovida pela AFI, "fazer jornalismo na capital é fácil, difícil é fazer jornalismo no interior".
É, a elite friburguense, ou melhor, a falsa elite friburguense, é detestável. Não mudou nada desde quando saí daqui aos 20 anos. De geração em geração, continua de nariz em pé, fingindo ser o que não é, ostentando egoisticamente seus bens comprados a prestação nem sempre honradas, hipócrita e bajuladora dos poderosos. Uma tristeza.
Outro problema de Friburgo é a política. O município já teve políticos memoráveis lá nos antigamente, movidos unicamente por um amor genuíno a esta terra. Atualmente, somos governados por grupos com interesses próprios e que não são, necessariamente, os mesmos da população, muito pelo contrário. Mas deixemos este tema para os comentaristas políticos. Quer saber mais? Leia em Atos e Relatos que o coleguinha Antônio Fernando conta tudo em sua lista dos dez piores do ano.
Eu não sou muito de listas não, mas se fosse fazer uma, certamente iria listar os melhores e não as piores. Mas uma das melhores coisas de Friburgo hoje é sua gastronomia, com restaurantes de todos os estilos e para todos os bolsos. Hoje, por exemplo, é dia da feijoada da Deise lá no Cantinho da Roça, no Cônego, que é simplesmente maravilhosa. Experimentem e todo sábado a gente vai se ver por lá. Por falar nisso, fui. Tenho um monte de coisas para fazer antes de sair e foi lembrar da feijoada para a fome começar a bater.
Custódia e Fustebrino, os anfitriões do Cantinho.

Créditos das fotos: A primeira, do Caledônia, é da Regina lo Bianco; a segunda, da Praça Getúlio Vargas, é do Nelson Alvarez e as demais, do Osmar de Castro, tiradas no primeiro dia do ano, em que Friburgo ficou absolutamente deserta.



