quinta-feira, 11 de junho de 2009
Mau gosto
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Solilóqio
A menina gostava muito de andar de bicicleta pela rua. De comer, só mesmo doce de leite e batata frita. E bife mal passado também. E caldo de feijão. "Êta menina dengosa", todos diziam.
Mas a tal menina era muito sozinha. Vivia tentando se enturmar, mas era tida como antipática e metida a besta porque gostava de ler, de ouvir música clássica na eletrola da sala. Sobravam, então, os primos e umas poucas meninas da rua. Ah, que inveja ela tinha dos primos com sua algazarra matinal, com as brigas na hora do almoço e as brincadeiras na hora de dormir.
Filha única. Sozinha. Sempre. Mimada. Tudo tinha hora certa pra fazer: deveres da escola, saídas de bicicleta, banho, refeições, cama.
Novidade era brinquedo novo, máquina de pipoca americana que um belo dia chegou na cidade. Todo mundo levou as criança para ver. A menina ficou horas vendo os carocinhos estourando e rodando através do vidro. Carnaval, todo ano igual, mas era bom. As férias também quase não mudavam. Nem as pessoas. Só quando morriam.
Ranheta e teimosa a menina continua atté hoje. Fala de boca cheia em aamadurecimento, mas não passa de uma mulher frágil como uma criança carente. Infantil até, eu diria. Quer tudo no momento exato e, para complicar, gostaria que os outros adivinhassem seus desejos. Não faz por menos. Nem pode esperar. E, como isso não acontece, a menina faz pirraça, fica zangada. Às vezes consegue fingir, até porque ela própria se impôs um comportamento que exige liberdade incondicional dos que lhe são próximos.
Mas aí, quando não aguenta mais, chora, descompensa. Como uma menina. Exatamente da mesma maneira que fazia quando era criança e mimada. Ela já envernizou bastante a fachada, mas lá dentro o ranço da infância permanece. Isso não vale, garota! É chantagem infantil, vai por mim!
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Pop Musik Rockroll
Lembrando Wambier

Figurinha inesquecível e querida foi o Wambier. Professor, jornalista, radialista, foi também tradutor, locutor, apresentador de telejornais e documentários. Sem exagero, ele tinha uma das vozes mais bonitas do rádio, da TV e da publicidade. “Eterno menino do Rio”, como foi descrito pela jornalista Lenira Alcure (com quem também foi casado), Wambier era, realmente, o mais carioca dos cariocas.
Apesar de nunca ter deixado de cultivar suas raízes pontagrossenses, só poderia ter vivido feliz mesmo no Rio. Mais precisamente, em Ipanema, onde se sentia em casa. Acordava tarde, dormia tarde, estava sempre cercado de amigos e mulheres, adorava um pé sujo, conhecia tudo o que era pinguço da Lapa e das redondezas. Não perdia uma praia, sempre no final da tarde e, nos finais de semana, preparava almoços antológicos para nós e uma galera de agregados. Que eram muitos. Os fixos, que viviam como satélites a seu redor e a imensa legião de fãs e conhecidos que apareciam de vez em quando, que ele encontrava na rua, na praia, no bar, na redação, na faculdade e levava prá casa. A qualquer hora do dia, da noite ou da madrugada.
Wambier era um maravilhoso contador de histórias e se divertia mais do que todos com elas. Sabia consertar tudo que é aparelho eletrônico e parecia sentir prazer em passar horas debruçado em válvulas e transistores. Filósofo por formação e por natureza, não suportou continuar no Brasil durante a ditadura e foi parar na Alemanha e na Suécia, onde passou quase dez anos.
Mas assim que a situação melhorou, tratou de voltar para a sua Ipanema e nem poderia ser diferente. Wambier adorava uma roda de samba, de chorinho, gostava de festa. Quando o astral baixava, era o primeiro a sugerir: “Que tal dar uma festa, em?” Não era difícil nem saía caro preparar alguns litros de caipirinha, umas pastinhas e espetinhos de carne para assar na churrasqueira. O chopp, a turma mais chegada rachava. E, mais uma vez, a cobertura da Lagoa se abria para uma multidão. Nunca tivemos problemas. Bons tempos aqueles.
Manoel Wambier era o pai de Leo, que rodou, rodou, mas voltou para Ponta Grossa, e de minhas filhas, Helena e Julia - 'as suas meninas', como ele sempre dizia - e morreu cedo demais, aos 50 anos. Durante a inauguração dos estúdios de rádio e TV da PUC (que, aliás, levam seu nome), Lenira fez um discurso belíssimo onde contou que antes de morrer, Wambier fez a seguinte confidência: “Pela primeira vez em minha vida, sinto que meu corpo é uma coisa e eu, sou outra." Hoje, dia 8, Wambier estaria completando 67 anos. Se fosse religiosa rezaria por ele em minhas preces. Saudades de você, Wambier.
Réquiem para João Antônio
Reli João Antônio neste final de semana. Malagueta, Perus e Bacanaço, seu grande clássico, com o qual conquistou dois prêmios jabutis de uma só vez, melhor livro de contos do ano e revelação de autor. Impressionante como quase ninguém conhece João Antônio, apesar deste extraordinário escritor contemporâneo ter conquistado tantos prêmios, ter seus livros traduzidos e publicados em diversos países e ser objeto de teses de mestrado até no exterior.Em sua obra, que ainda está para ser descoberta por tantos, João Antônio escancara, como nenhum outro escritor brasileiro, o mundo (ou o submundo) dos descamisados, dos biscateiros, dos pinguços, dos merdunchos (expressão cunhada por ele), dos salões de sinuca, do subúrbio, da zona do meretrício, dos pulgueiros. Seus personagens são sempre marginalizados, revoltados, incisivos, raivosos, assim como o próprio João que, contraditório como ele só, conseguia ser a mais doce das criaturas e, ao mesmo tempo, encarnar um ódio incisivo, sem medida por tudo que o rodeava. Pessimista incorrigível, João odiava o mundo das letras, as rodinhas literárias, as cerimônias oficiais, a hipocrisia, enfim.
Em seus contos e romances, João Antônio nos coloca frente a frente com uma realidade que nos cerca o tempo todo, mas que nos negamos a encarar. Mais: longe de despertar a nossa piedade, os personagens de João não pedem licença e parecem estar ali para peitar mesmo, para agredir, para chocar. Talvez seja por isso, aliás, que a obra de João Antônio nunca tenha tido a repercussão que merecia junto ao grande público e mesmo junto à crítica. Da qual, diga-se de passagem, ele zombava frontalmente.
Ah, e que grande jornalista ele foi. Dono de um texto ágil, enxuto, direto, fez grandes reportagens para a Realidade - me lembro especialmente de uma, sobre a Cidade de Deus – para o Pasquim e outros jornais alternativos. Foi ele, inclusive, quem inventou a expressão “imprensa nanica”.
Uma figura ímpar, o João. Era um solitário por natureza, mas me orgulho de ter sido sua amiga. João morava sozinho num apartamento na Praça Serzedelo Correia, em Copacabana e seu corpo só foi encontrado quinze dias depois da sua morte. Um triste e horroroso fim.
sábado, 6 de junho de 2009
Grande Nelson Motta
"Pena que os velhos anarquistas mais libertários não viveram para ver um instrumento tão livre, poderoso e igualitário como a internet, que justamente por isso é tão temida pelas tiranias de esquerda ou de direita. Cada vez mais acessível a mais gente, ela nivela e aproxima, dá voz e imagem a todos e a qualquer um, é um espaço de liberdade e independência que cresce em proporção aos avanços tecnológicos que tornam as máquinas mais rápidas e potentes, mais leves e baratas.É nesse território livre que surgem as primeiras evidências do que Chris Anderson chama de – whaall! – “Novo Socialismo” em texto-bomba na revista “Wired”. A Wikipedia é um exemplo da socialização da informação, gratuita e mantida por contribuições voluntárias. Sem nenhuma interferência do Estado. Assim como as novas formas de compartilhamento, de troca de arquivos, os sites de buscas, o You Tube, significam uma inédita socialização da informação, do lazer, da arte e da opinião.
A diferença é que não são conquistas feitas pelos métodos totalitários e repressivos de Estados fortes, mas pela liberdade e o empreendedorismo só possíveis em sociedades abertas. Nenhum Estado comunista investiria nessas tecnologias de informação e comunicação, só para fins militares ou de propaganda. Se alguém ler para Hugo Chávez o texto da “Wired”, o Beiçola vai levar um susto ao descobrir que o que ele chama de socialismo do século XXI é do XIX: o do terceiro milênio está na internet. Bytes o muerte, compañero!
Enquanto isso, em Brasília, se anuncia mais um “fórum” para tentar encontrar instrumentos da democracia para instituir controles e limitações à imprensa, com o objetivo de “democratizar a informação”, como se nossas rádios, jornais e televisões já não disputassem ferozmente a preferência do público e dos anunciantes, todos competindo pelas melhores produções, para todos os gostos.
Mas, com as lan houses se espalhando pelas cidades, computadores cada vez mais baratos e redes sem fio por toda parte, como é que eles vão fazer o “controle social” de 65 milhões de brasileiros online? Estão atrasados, mais uma vez".
sexta-feira, 5 de junho de 2009
Copacabana...sempre Copacabana

Cheias de luz
Nenhuma tem o encanto
Que tu possuis
Tuas areias, teu céu tão lindo
Tuas sereias, sempre sorrindo
Copacabana, Princesinha do Mar
Pelas manhãs tu és a vida a cantar
E à tardinha, ao sol poente
Deixas sempre uma saudade na gente
Copacabana, o mar, eterno cantor,
Ao te beijar fico perdido de amor
E hoje, vive a murmurar:
Copacabana de Alberto Ribeiro e João de Barro, o Braguinha
quinta-feira, 4 de junho de 2009
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Tristeza
"Nosso mal-estar também se mistura ao destino do vôo: Paris. Paris não é lugar de sofrimento, de dor ou punição. Quantos, dentre aqueles passageiros, não acordaram no domingo com um brilho excitado nos olhos: “Hoje eu vou pra Paris”. E os amigos, parentes, colegas sorriam de inveja, mesmo de quem fosse a trabalho. Não se chora em Paris – só nos filmes franceses. O acidente do Airbus traiu as expectativas de seus passageiros. Negou-lhes Paris e imprimiu, nos corações de quem sobreviveu, a imagem de uma dor que parece sem cura".
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Malditas etiquetas!
"Jesus, me abana!!!"
Todas as noites ele entra sala adentro, perturbando nosso sossego. Aproxima-se de nós, enquanto nosso companheiro de quarto cochila na poltrona. Rouba nossos sorrisos mais íntimos e nossos ais quando lambe com os olhos o rosto de sua mulher.
Ele a olha delicadamente, e seu olhar varre seu corpo devagar, enquanto suas mãos a tocam quase imperceptivelmente. Ele a abraça enquanto ela está de pé! Ah, como isto faz diferença! Deitados, somos todos do mesmo tamanho, e isso muda tudo. De pé, as distâncias, as diferenças, são percorridas pelos olhares, pelo sussurro da respiração e, principalmente, de pé a gente se move e os corpos se aproximam e se afastam, criando uma energia absolutamente especial
Como já diziam os antigos: mulheres não têm órgão sexual! Por isso espalharam sua sexualidade por toda a pele. Mas, por algum motivo, esqueceram de dizer isto aos homens. Então, enquanto as mulheres esperam ansiosas que seus parceiros lhes acariciem a nuca e os cabelos, eles se preocupam em despi-las. As mulheres não querem ser despidas, querem ser desfolhadas, querem que lhes retirem as pétalas suave e delicadamente. E o Raji faz isso, enquanto muitos maridos leem a parte de esportes do jornal...
O Raji jura que vai tentar! As mulheres adoram esse tipo de compromisso. Mas muitos maridos acham completamente desnecessário reafirmar afetos que já deveriam estar mais do que claros. O Raji dança e se encanta com a dança de sua mulher. As mulheres adoram dançar e mais, adoram serem vistas dançando...
O Raji entra pela tela da tevê e invade os sonhos das mulheres, que sorriem encantadas, enquanto alguns maridos esperam a novela acabar para ver alguma coisa que preste na TV. O Raji autoriza fantasias, estimula desejos e, principalmente, se alia à mulher na defesa da delicadeza e da ternura...
Ou tiram o Raji do ar ou vai ter muita mulher pedindo visto para a Índia ou despachando seus companheiros de vida para outros destinos. Porque enquanto ninguém faz as mulheres se conformam, mas quando aparece alguém fazendo, fica muito mais difícil resistir ao desejo de ser delicadamente amada. (Elma Izai, psicanalista)





