segunda-feira, 16 de novembro de 2009

'Agreções' ao português





Estava eu aqui mergulhada na correção dos textos redigidos por meus alunos de Redação em Comunicação III (quinto período do curso) quando me deparo com a palavra ‘sensura’ grafada assim mesmo, com ‘s’. Erro de digitação, pensei. Mas, logo adiante, tinha outros ‘sensura’, aliás, dois na mesma frase - outra falha de redação imperdoável.
Mais um para a minha lista de ‘erros imperdoáveis’. Vejam se não é, realmente, imperdoável, uma pessoa que faz um curso superior de Comunicação (e, portanto, pretende seguir a carreira de jornalista ou publicitário), escrever, por exemplo, 'pesquizas', com ‘z’, 'compania', sem ‘h’, 'disperdicei', com ‘i’, 'propia', sem ‘r’, 'recentimento', com ‘c’ e daí por diante.
Sem falar em outras agressões ao idioma, ainda mais graves – e, decididamente, inacreditáveis - que venho flagrando ao longo das cansativas correções nos textos semanais que me são apresentados. E que, diga-se de passagem, na maioria das vezes, só são redigidos porque “valem nota”. Enquanto não adotei este critério, pouquíssimos alunos se davam ao trabalho de fazer as redações propostas.
Só para vocês terem uma idéia da dimensão do problema, aqui estão algumas destas ‘agreções’ ao nosso belo idioma da minha coleção de pérolas:
hurbano, atênção, recolem (recolhem), langerie, sussego, contextações, higiêne, despeza, alto-didata, em quanto, (enquanto), incomenda, descordou, insiguinificante, autíssemos, hurbano, dividi (divide), de mais (demais), assecível, agrícula, atênção, entendi (entende), juis (juiz), desatualisada, le (ler), deicham, toda via, indentidade, aumejava, consedido, reuni (reúne), envestem, impocibilitado, trêm (trem), impresária, concertar, visinhos, engressou, em posta (imposta), em capaz (incapaz), divido (devido), íngrimes, diverção, pré-viamente, cumprimentão, fan (fã), durmir, despesso e outras agressões, como ‘câmara’ de gás, ‘Câmera’ dos Deputados, ‘tráfico’ de veículos, ‘tráfego’ de drogas, ‘a’ muito tempo.

Obviamente, só aponto os responsáveis por estes crimes contra a língua portuguesa para seus próprios autores. Mas faço questão de exibi-los e destacá-los em classe, para que todos os alunos se dêem conta de como os mesmos são gritantes e como depõem contra quem os comete. Minha esperança é que, a partir daí, comecem a ler mais, a correr atrás do tempo perdido.
E notem que estou falando apenas de erros ortográficos, sem levar em conta a falta de coerência, de articulação, eu diria até, de sentido, de muitos textos que chegam às minhas mãos. Lamentavelmente, o que venho constatando em minhas aulas é que muitas pessoas chegam à universidade sem conseguir se expressar por escrito de uma forma minimamente clara e correta.
É desanimador constatar a falta de base, o despreparo destes meninos, mas a culpa, certamente, não é deles. Se chegaram até onde chegaram é porque, mal ou bem, cursaram 12 anos de escola, sem contar o tempo de faculdade. Lastimável.



10 comentários:

Rachel disse...

Tia Dalvinha,

Curioso porque esse assunto tem sido recorrente nas minhas aulas de linguística (agora, infelizmente, sem o trema) da faculdade. O que me deixou mais espantada é que muitos desses erros acontecem por um fenômeno, eles seguem um padrão que é visível em "pobrema" e "ploblema"... Isso sem dúvida me causa um enojamento imediato, mas a faculdade está me ensinando que eu não devo ter esse preconceito, porque a tendência de todas as línguas é mudar, a mudança no decorrer do tempo é inevitável...
Mas isso não exclui o fato da escola básica - que é o maior freio da mudança da língua, o ensino das normas gramaticais - estar muito prejudicada. Mas se pensarmos que o programa de estudos é o mesmo há 50 anos, é natural que isso seja assim. Ainda que o plano fosse executado com maestria, não poderia ser considerado um bom plano...quando digo plano, estou me referindo à "lei" (Nomenclatura Gramatical Brasileira - NGB) que obriga os professores a ensinarem aos alunos a classificação de sujeitos e predicados ao invés de apresentá-los à leitura. Os alunos são perfeitamente capazes de entender o que é um sujeito e o que é um predicado sem que para isso tenham que decorar nomes, poderiam aprender a identificá-los nos textos...

Enfim, tudo isso dá margem a uma grande discussão...
E, sem dúvida, os alunos chegam a faculdade semi-analfabetos. Não é só na escrita que isso é evidente, mas também no entendimento das propostas de redação e das perguntas. Por isso a responsabilidade do professor de português é tão grande, porque essa é uma disciplina que será importante para tudo e por toda vida...

Espero poder mudar, pelo menos um pouco, esse quadro.

Um beijo grande,

Chel.

Ana Borges disse...

Dalvinha, me deu até agonia de ler esse comentário.
Qto. a esse aprendizado, sou pessimista, pq. o sistema parece conivente c/essa situação, do contrário reprovava.
A disciplina denominada Português devia ter o poder de reprovar.
Mas pelo andar da carruagem, a tendência é piorar. Pq. ninguém lê mais nem jornal. Escrever então, só na base de abreviaturas.
Como uma faculdade vai deixar um aluno concluir um curso, qq. curso, apenas semi-alfabetizado?
Tem q. tomar alguma atitude, reprovar, deixar mofando até aprender a escrever, sei lá!
É um acinte, uma vergonha, uma pessoa receber um diploma universitário esculhambando o idioma dessa forma.
Como disse a Rachel aí em cima, é um nojo.
E ñ acho q. seja preconceito ñ. Esses alunos têm q. ter vergonha na cara e dedicar pelo menos meia hora q. seja, por dia, a algum tipo de leitura, nem q. seja bula de remédio. E livro caro ñ é desculpa. Vai na Biblioteca Municipal, cacete!
Meu Deus do Céu!!!!

Liliana Sarquis disse...

E aí, esses alunos se formam, ganham diploma de jornalista (já estão no quinto período, não?) e pessoas com talento, mas sem diploma são olhados como aproveitadores por estarem "ocupando" o lugar dos coitadinhos, que pagaram quatro anos de faculdade, "estudaram", "ralaram", para vir "qualquer um" e pegar seu lugar...Afinal, tiraram a obrigatoriedade de diploma, prejudicaram quem se forma etc...etc..decididamente o talento tem que ser critério para algumas profissões. Não, não me venham falar em medicina, engenharia...aí vou ter que apelar para Chico, Caetano, gil e muitos outros que não cursaram a faculdade de música.

Monique disse...

É sem dúvida um assunto complexo. Aliás, nem tanto, se levarmos em consideração que uma boa base escolar é capaz de nos poupar de algumas "pérolas".
A inversão de valores é tamanha, que chego a ficar feliz quando leio um texto na net sem as benditas "agreções", ou no bom e velho português, AGRESSÕES.

ABÇS.

Anônimo disse...

Viva o corretor ortográfico ! rssss

AB disse...

Pois é, anônimo, nem o corretor tá valendo no momento, pq. com a reforma ortográfica, o corretor 'corrige errado'.
A gente escreve de acordo c/a nova forma adotada e ele grifa como erro.
Uma confusão dos diabos!
Aí é q. esses analfabetos vão se danar mais ainda.
E a gente q. aguente.
Aliás, Lili, isso q. vc. argumentou é o q. deveria estar sendo discutido e ñ a obrigação de diploma de jornalista. Seria mais proveitosa a faculdade de letras p/quem quer escrever. Até pq., quero deixar claro, ñ sou contra diplomas universitários.
Sou contra ensino ordinário e alunos displicentes.
Aliás, 4 anos num curso de jornalismo pra quê? Fingindo q. tá aprendendo o quê? Dois anos de um curso honesto já estaria de bom tamanho. É na prática, na redação, no dia a dia é q. se vai aprender a ser jornalista pra valer.
Médicos e engenheiros são outra história. Taí o exemplo do rodoanel de SP p/mostrar q. nesses casos a faculdade é fundamental, condição sine qua (desculpa, mas ñ me ocorreu um sinônimo). São vidas postas em perigo, etcetal. Direito, tem as leis, filosofia, e o escambau. Por aí vai...
A discussão q. interessa é a qualidade da formação desses novos "jornalistas".
O resto.... bem, é o resto do resto.

Liliana Sarquis disse...

Vamos ver a coisa por outro ângulo: se é injustiça - com os formados em faculdades - uma pessoa, com talento mas sem ser formado conseguir um emprego, mais injustiça ainda é uma pessoa entrar na faculdade, estudar pra caramba, tirar notas boas e os coleguinhas de turma não fazerem nada, não lerem, não escreverem,~usarem um esforçado para fazerem trabalhos em grupo (em grupo???) e no final todos estarem ali, lindinhos, recebendo o diploma. E aí, vem um desses, é filho de alghuém, que conhece outro alguém que é da imprensa e enfia o fdp lá na redação. O cara é ruim, mas tem costas quentes. chupa tudo da internet e nem dá crédito). Aí vcs vão dizer, ah, não é assim, ele vai acabar dançando. Pode até ser, num grande veículo... mas em veículos menores, do interior...

Anônimo disse...
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Anônimo disse...
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Dalva Ventura disse...

Gente, em primeiro lugar, que fique bem claro, não são todos os alunos que cometem estes assassinatos contra o idioma não.Pelo contrário, até. Felizmente. Alias, tenho tido a felicidade de ter muitos pupilos interessados, que escrevem muito bem, se interessam por leitura, alguns até mesmo brilhantes. Não sem razão, alguns até conseguiram se colocar no nosso estreitíssimo mercado de trabalho.

Rachellzinha, fofa, interessantíssimas estas suas colocaçoes. Infelizmente, nao são preconceitos não. Sao erros graves e que nao devem ser cometidos. A culpa, sim, é da escola e tb. dos pais, que nao acompanham de perto o estudo de seus filhos (até pq. nao têm tempo pra isso) e, muito menos, cultivam o hábito da leitura. Este, sim, capaz de levar as pessoas a escreverem corretamente, sem que tenham que decorar aquelaas detestáveis regras gramaticais ou conceitos de sujeito e predicado, como vc. comentou.
Bjs a todos