
Tragédias como as do Haiti, a mais recente, me deixam absolutamente descrente de que haja alguma possibilidade de existência de um poder superior ou algo que o valha. Que me perdoem os crentes, que chovam as críticas e os esculachos, que os céus caiam sobre a minha cabeça, mas não dá para acreditar que tudo o que aconteceu ali, que todo aquele sofrimento aconteceu por obra e graça de deus e que isso possa fazer algum sentido para alguém.
Ao olhar para aquelas multidões desesperadas, esfomeadas, os sobreviventes de uma tragédia que matou 140 milhões de pessoas num dos países mais miseráveis do mundo, sinto um desalento medonho. E, na impossibilidade de ajudar, de contribuir para minimizar, de alguma forma, o sofrimento daquela gente, me revolto com a ideia de um deus pai, bondoso, amoroso, incrustada em nossas mentes desde a primeira infância.

Que pai deixaria seus filhos sofrerem tanto e de tantas maneiras? Porque a verdade é que todos nós, aqui na terra, sofremos. Alguns mais, outros menos, o fato é que a existência, definitivanente, não costuma ser um mar de rosas para ninguém. Longe de mim querer entrar em controvérsias religiosas ou debates filosóficos sobre este tema. Até admiro quem consegue ter e manter sua fé, apesar de tudo e diante de tudo. Quanto a mim, à medida que envelheço, multiplicam-se as interrogações e as dúvidas, assim como diminuem as certezas.

Que pai deixaria seus filhos sofrerem tanto e de tantas maneiras? Porque a verdade é que todos nós, aqui na terra, sofremos. Alguns mais, outros menos, o fato é que a existência, definitivanente, não costuma ser um mar de rosas para ninguém. Longe de mim querer entrar em controvérsias religiosas ou debates filosóficos sobre este tema. Até admiro quem consegue ter e manter sua fé, apesar de tudo e diante de tudo. Quanto a mim, à medida que envelheço, multiplicam-se as interrogações e as dúvidas, assim como diminuem as certezas.
Criada em igreja metodista, tornei-me católica na adolescência, encantada com o ritual das missas e procissões, encantamento este que se somou à revolta com as proibições absurdas que me eram impostas por ser crente. Entre elas, a de curtir o carnaval. Desde então, já fui esotérica, umbandista, espírita kardecista, já namorei o budismo e até voltei a ser crente após passar por uma verdadeira lavagem cerebral num momento de grande depressão e crise existencial. Depois disso, tornei-me assumidamente agnóstica.

Posso afirmar que esta não é uma posição confortável. Existe um enorme preconceito contra quem assume não ter religião e, mais ainda, sobre os que admitem não crer em deus. A tolerância religiosa é um fato no Brasil, mas só para quem tem alguma religião, qualquer uma, nem que seja de fachada. Quanto a nós, os que não professamos nenhuma fé, mesmo ficando quietinhos na nossa e nos recusando a entrar em polêmicas, somos olhados meio de banda, como se não fossemos dignos de respeito.
Acho lamentável que a relação entre ateus e religiosos seja uma via de mão única. Eu não fico dizendo para os espíritas o quanto acho infantil e viajante a ideia da rencarnação. Não ridicularizo os adultos que se sentem dotados de superpoderes que os tornam capazes de vidências e premonições. Respeito os católicos mesmo considerando por demais hipócrita essa coisa de santos, anjos, demônios, assim como o céu e o inferno comum aos crentes. Mas a recíproca não é verdadeira. Vira e mexe sou olhada de banda e desconfiança por não ter religião, por não ter fé no sobrenatural ou no espírito santo. Mesmo sem dizer claramente, as pessoas encaram o fato de não ter religião uma espécie de defeito de caráter ou, pior ainda, um defeito moral.
O que, aliás, não deia de ser natural num país de crédulos como o Brasil. Nós, os que não cremos, somos uma minoria absoluta. Os ateus representam um por cento da população brasileira, segundo pesquisa do Datafolha e os agnósticos, feito eu, outros dois por cento. Os outros 97% crêem em algum tipo de divindade que rege o planeta, sendo que a maioria esmagadora acredita no deus do mito judaico-cristão.

Imagens de Aaron Jasinski e Ram Castillo.



