Drummond insistiu para que eu sentasse enquanto ia buscar o texto. Voltou logo com dois livros que me deu de presente. Quando pedi para autografar, aproveitei e pedi para fazer o mesmo no poema da Pais & Filhos. E ele escreveu num cartão: "A Dalva com um abraço. Rio, 10 de setembro 1984". O original eu emoldurei e, desde então, tem lugar de destaque na casa, mesmo todo amarelado.
Soneto de uma criança (Carlos Drummond de Andrade)Como fazer feliz meu filho?
Não há receitas para tal.
Todo o saber, todo o seu brilho
de vaidoso intelectual
vacila ante a interrogação
gravada em mim, impressa no ar.
Bola, bombons, patinação
Talvez bastem para encantar?
Imprevistas, fartas mesadas,
Louvores, prêmios, complacências,
Milhões de coisas desejadas
concedidas sem reticências?
Liberdade alheia a limites,
perdão de erros sem julgamento
e dizer-lhe que estamos quites,
conforme a lei do esquecimento?
E se depois de tanto mimo
que o fascinava, ele se sente
pobre, sem paz e sem arrimo,
forma vazia, amargamente.
Não é feliz. Mas que fazer
para consolo desta criança?
Como em seu íntimo acender
Uma centelha de confiança?
Eis, acode meu coração
E oferece, como uma flor,
A doçura desta lição:
dar a meu filho o meu amor.
Pois o amor resgata a pobreza,
Vence o tédio, ilumina o dia
E implanta em nossa natureza
A imperecível alegria.
(Rio, 18/4/1984)



